CDU de Santo Tirso indignada com despedimentos na Polopiqué

CDU de Santo Tirso indignada com despedimentos na Polopiqué

Imagem: CDU Santo Tirso

A CDU de Santo Tirso, através de um comunicado enviado às redações, manifestou o seu desagrado e até indignação pelos despedimentos anunciados na Polopiqué.

Escolheu o governo o mês de Agosto para anunciar o famigerado Pacote Laboral. Uma verdadeira declaração de guerra aos trabalhadores e ao Movimento Sindical Unitário que, de entre inúmeras medidas danosas, prevê na prática a legalização dos despedimentos sem justa causa ao retirar a obrigação aos patrões de provarem as acusações feitas e ao autorizar o patrão a recusar a reintegração mesmo após o despedimento ser provado ilegal.

Neste mesmo mês de Agosto a empresa Polopiquê, sediada em Santo Tirso, atualmente uma das principais empresas do sector têxtil europeu, comunicou o despedimento coletivo de 280 trabalhadores, num processo de reestruturação que pode levar à perda de 400 postos de trabalho. Mandados para casa com salários em atraso estes trabalhadores sentem-se justamente enganados e traídos pela entidade patronal, não tardando entretanto, a ocorrer, começando pelo próprio patrão, quem justifique a tragédia com a famosa “crise no têxtil” que assola o sector, fruto ora das tarifas do EUA, ora das quebras no consumo, ora da competição do mercado chinês.

Amaldiçoada coincidência num concelho onde 44.6% dos trabalhadores estão ligados à indústria transformadora, na sua maioria ao sector têxtil, que esta crise que assola o sector coincida no tempo com o preocupante anúncio da parte do governo.

Mas vamos a factos. As exportações têxteis portuguesas mantiveram-se praticamente estáveis nos primeiros sete meses de 2025, atingindo um valor total de 3 358 milhões de euros, uma ligeira queda de 0,1% face ao mesmo período de 2024, correspondendo a 4,2 milhões de euros. No que diz respeito aos destinos das exportações, o comércio intra-União Europeia totalizou 2 431 milhões de euros, em ligeira descida de 1%, enquanto o comércio extra-comunitário atingiu 927 milhões de euros, crescendo 2%. Por quantidade, os cinco principais países foram Espanha (70 934 toneladas), França (45 934 toneladas), EUA (19 934 toneladas), Alemanha (18 322 toneladas) e Reino Unido (14 072 toneladas), tendo inclusivé ocorrido um crescimento de 2% das exportações para os EUA!

A própria empresa Polopiquê, apesar da quebra de vendas em 2024, teve resultados positivos ao nível dos negócios centrais do grupo, e integra ainda o chamado Projecto Lusitano, financiado pelo PRR, que prevê um investimento total de 111,5 milhões de euros. Importa também destacar o domínio que o sector do retalho e o capital estrangeiro exercem sobre a indústria têxtil, e as brutais mais valias que extraem do suor de trabalhadores que nem sequer empregam. No caso da Polopiquê, facilmente identificamos aquele que é, ao mesmo tempo, o seu principal cliente e credor e grande interessado no processo de reestruturação. Trata-se do grupo espanhol Inditex, dono de marcas como a Zara, Massimo Dutti, Bershka ou Oysho, um dos maiores grupos económicos da Europa que viu as suas vendas aumentar 1.6% nos primeiros 6 meses do ano, com cerca de 2,8 mil milhões de euros de lucros. Este grupo determina o investimento e todas as fases do processo produtivo, fica com a maior fatia das mais valias e ainda deixa suficiente ao patrão da Polopiquê para que a sua empresa esteja no grupo das 1% maiores de Portugal e para que de lá ele próprio extraia dividendos. A Inditex tem assim “sob a sua alçada” 8 mil empresas do sector têxtil na Península Ibérica. Um monopólio que acumula milhões de euros de lucros sem empregar diretamente um único operário, um gigante do retalho que foi um dos principais interessados no despedimento dos 280 trabalhadores da Polopiquê como a própria empresa admite.

Há problemas pontuais? Claro que sim, mas o que caracteriza o sector são os baixos salários, o desrespeito pelos direitos dos trabalhadores, a concentração brutal de riqueza nas mãos dos acionistas dos grupos que o dominam, os casos de gestão danosa e processos de “reestruturação” para descartar trabalhadores e deslocalizar a produção (como na Polopique), e os casos, a que a segurança social e o governo continuam a fechar os olhos, de patrões que encerram empresas numa terra e abrem uns meses depois com as mesmas máquinas e os mesmos trabalhadores na terra ao lado. O que caracteriza a realidade de Santo Tirso e do Vale do Ave é a vida faustosa dos grandes empresários do têxtil com as suas mansões e carros de alta cilindrada e a vida difícil de milhares de operários que não sabem como pagar as contas no fim do mês.

Por tudo isto, o que está em causa neste dia 20 é construir uma grande jornada de luta contra o pacote laboral do governo e dos patrões ao participar na manifestação com início na Praça do Marquês no Porto às 10h30 e reforçar a organização dos trabalhadores nos sindicatos da CGTP-IN.

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